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Por Dr. Luciano Ferraz

Atopia Canina

INFORMAÇÕES GERAIS:

A Dermatite Atópica Canina (DAC), também conhecida como doença atópica, atopia ou dermatite inalante alérgica é uma doença de caráter hereditário genético no qual o paciente demonstra sensibilidade a alérgenos inaláveis presentes no ambiente através da inalação, ingestão ou pelo contato, onde sua principal característica é o prurido (coceira) nos cães.

A Atopia Canina é um dos principais distúrbios dermatológicos na clínica médica de pequenos animais, chegando a uma incidência de até 35% dependendo da região do país. O paciente torna-se sensibilizado a antígenos presentes no ambiente pelas vias percutânea, inalatória e orofaríngea.

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A doença causa uma hipersensibilidade tipo 1, onde existem reações celulares com liberação de substâncias mediadoras comuns (enzimas proteolíticas, histamina, leucotrienos, citocinas, etc.) que são responsáveis pelos sintomas. Ocorre uma falha na barreira de proteção cutânea onde facilita a entrada de alérgenos ambientais e microbianos, promovendo inclusive infecção bacteriana e/ou fúngica secundária.  Dependendo dos alérgenos envolvidos a DAC pode ser sazonal (de tempos em tempos) ou perene (contínua).

Os animais começam a apresentar a doença entre os 6 meses aos 6 anos de idade, tendo uma maior prevalência em adultos jovens, com cerca de 1 a 3 anos de idade. Certas raças sabidamente têm uma predileção pela atopia, como exemplo: Maltês, Shih tzu, Lhasa Apso, Yorkshire, Poodle, Pastor Alemão, Pug, entre muitas. Na atual prevalência prática não é incomum vermos animais S.R.D (sem raça definida), acometidos pela patologia.

SINAIS CLÍNICOS:

O principal sintoma demonstrado pelos cães acometidos pela Dermatite Atópica Canina (DAC), é o prurido (coceira), exibido pela lambedura de patas, fricção e arranhões nas áreas afetadas, resultando em lesões cutâneas pelo auto traumatismo e também o espessamento da pele(hiperqueratose) por conta do processo inflamatório crônico. As áreas mais comumente afetadas são os espaços interdigitais, face, axilas, virilha e pavilhões auriculares.

Geralmente o animal demonstra: eritema (vermelhidão da pele), crostas, dermatite (inflamação na pele), hipotricose (diminuição de pelos), descoloração salivar, hiperpigmentação, presença de infecções purulentas na pele, seborreia secundária, otite externa (muitas vezes se tornando crônicas), entre outros.

Fonte: Willemse 1998

DIAGNÓSTICO:

O diagnóstico da DAC baseia-se no histórico do animal, exame físico e o descartando a maioria das que causam prurido (coceira) e alérgicas. Teoricamente um diagnóstico definitivo poderia ser firmado em testes intradérmicos para a identificação do agente etiológico que desencadeia a reação de hipersensibilidade no animal, porém, este teste pode ser altamente variável dependendo do método utilizado, ocorrendo várias reações falso-negativas e falso-positivas.

Em resumo, uma boa anamnese, com questionamento positivo na maioria de tais perguntas: idade de início dos sintomas?  Cães vivem em ambientes internos? Prurido (coceira) responde bem ao uso glicorcoesteroides? Prurido é a causa das lesões? Lesões em dígitos de patas? Lesões em pavilhão auricular com otite de repetição? Ausência de lesões nas bordas das orelhas? Ausência de lesões em região dorso-lombar?, combina com um diagnóstico favorável de Atopia Canina.

Fonte: Willemse 1998

TRATAMENTO:

A terapia baseia-se no tratamento sintomático, controle do prurido (coceira) e eliminação das infecções secundárias. Não podemos esquecer de realizar um controle de ectoparasitos (pulgas, carrapatos) visto que, grande parte dos animais acometidos pode haver dermatite alérgica a picada de pulgas (DAPP) concomitante a Dermatite Atópica. Uma opção alternativa para o tratamento, seria o impedimento do animal à exposição ao alérgeno, sendo possível em raros casos, isso porque a maioria dos pacientes reagem a vários tipos de antígenos. Não existe um protocolo de tratamento universal e o gerenciamento da DAC deve ser adaptado ao caso individual com base na resposta à terapia, potencial de efeitos adversos, conformidade do proprietário e custos de medicações.

A base do tratamento consiste em medicamentos e shampoos com ação antipruriginosa (efeito de melhorar a coceira), imunossupressores, antibióticos e/ou antifúngico (em casos de infecção bacteriana e/ou fúngica secundária).

Devemos sempre lembrar que o tratamento da Atopia Canina não é curativo e sim conservativo, onde, temos que controlar os sintomas para melhorar a qualidade de vida do animal. Animais atópicos são dependentes de uma terapêutica ad eternum, precisando assim de um acompanhamento médico veterinário constante para acompanhamento, realização de exames laboratoriais e para a avaliação de alterações de forma precoce e supostas mudanças terapêuticas e/ou ajuste de doses.

Os fármacos mais ultilizados são: Glicorticoides, antihistaminicos, imunossupressores (tacrolimus, ciclosporina, etc.), maleato de oclacitinib (apoquel), anticorpo monoclonal caninizado (cytopoint), imunoterapia, entre mtos outros.

Os corticosteroides são os mais utilizados, devido a sua resposta satisfatória, baixo custo, facilidade de administração, facilidade de aquisição. Apesar da eficiência devemos lembrar que esta classe de medicamentos é munida de diversos efeitos colaterais, como: atrofia muscular, poliúria, polidpsia, polifagia, ganho de peso, retenção de sódio, vômitos, pancreatite, hipertensão, tromboembolismo, imunossupressão, úlceras gástricas, hiperadrenocorticismo, a outras alterações de leves a grandes riscos aos animais, portanto, a utilização destes medicamentos em longo prazo não é muito indicada. 

CONCLUSÃO:

A dermatite atópica canina é um desafio para o médico-veterinário, sendo uma doença incurável com origem genética que afeta cada vez mais animais na clínica de pequenos animais. O entendimento e receptividade dos tutores em relação ao tratamento e prognóstico nem sempre é de fácil acesso ou compreensão. É uma doença que ainda requer muitos esclarecimentos, inúmeros medicamentos vêm sendo usados para o tratamento e controle desta patologia, porém, muitos destes têm demonstrado baixa eficácia enquanto outros uma alta quantidade de efeitos adversos, vê-se assim a importância de novas alternativas terapêuticas com eficiência elevada e uma taxa de efeitos colaterais diminuída, garantindo uma melhor e maior longevidade aos cães afetados.

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Dr. Luciano Ferraz
Médico-veterinário formado pela Faculdade de São João Boa Vista em 1995, com Pós Graduação e atuação na área de Cirurgia Ortopédica, Cirurgia Geral, Oftalmológicas e Clínica Médica de pequenos animais.
Proprietário do Centro Médico Veterinário de Campinas.

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