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Por Dr.ª Ciciane Marten Fernandes

Otite externa em cães: considerações gerais

A casuística de atendimento dermatológico é bem elevada dentro da clínica médica de pequenos animais, em especial as otopatias. Apesar de serem de diagnóstico fácil quando realizadas por profissionais veterinários, muitos tutores apresentam dificuldade em detectar a enfermidade, sendo comumente encontradas durante o exame clínico do paciente para outra finalidade. 

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A otite é uma afecção inflamatória comum em cães. E por quê ela se apresenta com elevada casuística? O principal motivo é que a etiologia em cães é multifatorial e a maioria dos casos evolui para cronicidade, aliada a fatores ligados a casos de alergias, ocasionando infecções repetidas e continuadas.

Paciente apresentando eritema e descamação do conduto auditivo – Foto: Arquivo da autora

Tipos de otites

As otites podem ser classificadas em ceruminosas, eczematosas e purulentas e devem ser classificadas também quanto a etiologia como: parasitária (sarna sarcóptica, sarna notoédrica, sarna demodécica), micótica (dermatofitose, malasseziose), alérgica (dermatite atópica), bacteriana (microrganismos Gram positivos e Gram negativos), auto-imunes (síndrome lúpica, pênfigo foliáceo) ou oncológica. Importante ressaltar que algumas raças são mais propensas pelo tipo de orelha (exemplo a orelha pendular) como Cocker Spaniel, Basset Hound, Labrador e Dachshund, como também pela presença de pelos no interior do conduto auditivo (Shih Tzu e Poodle). É necessário também destacar que otites unilaterais podem ser causadas pela presença de corpos estranhos.

Sintomas e diagnóstico

As sintomatologias mais comumente observadas nos casos de otite externa são eritema, edema, cerúmen e crostas, prurido e otalgia (em casos mais severos). Secreções amareladas e/ou esbranquiçadas no canal auditivo podem indicar infecções bacterianas. O paciente apresentando dor na palpação da articulação temporomandibular e bula timpânica e lateralização da cabeça indica sinais importantes para a avaliação de uma possível otite média.

O diagnóstico é realizado por meio de uma anamnese minuciosa com perguntas como tempo de evolução do quadro, progressão, uso anterior de medicamentos e se há outras áreas do corpo afetadas, visando a busca da causa primária. Deve ser realizado a avaliação direta e indireta (com otoscópio) do conduto auditivo, o exame microscópico dos debris auriculares e coloração do exsudato auricular (citologia). A realização de culturas fúngicas e bacterianas podem ser conduzidas quando os casos forem crônicos ou recidivantes, ou se na avaliação for observado rompimento da membrana timpânica. Exames auxiliares de imagem também podem ser utilizados, como vídeo-otoscopia, raio-X e tomografia. 

Citologia do conduto auditivo com presença de malassezia sp. (seta). – Foto: Arquivo da autora

Tratamento

Para a realização do tratamento é necessário envolver a terapia sintomática da infecção auricular aliado a correção da causa básica. Os objetivos do tratamento são 1) reduzir a inflamação, dor e/ou prurido; 2) tratar infecções bacterianas ou fúngicas e 3) corrigir a causa primária. É imprescindível orientar o tutor da aplicação adequada dos medicamentos, visto que podem ocorrer pioras das infecções no uso errôneo dos produtos ou desenvolvimento de farmacodermias. A realização de exames otoscópios semanais aliado a citologia auricular são importantes para assegurar o progresso e determinar quando a otite está completamente curada.     

A terapia para a otite externa tem como base o uso de produtos tópicos, mas em alguns casos, quando há hiperplasia do conduto com estenose do canal vertical pode-se incluir na terapia o uso de glicocorticoides sistêmicos para reduzir a inflamação e tumefação.

Frente ao exposto, pode-se concluir que o tratamento sintomático da otite externa não é efetivo se não houver o comprometimento do médico-veterinário para investigar qual é a doença subjacente, pois caso contrário, a otite será recorrente e haverá alterações irreversíveis no conduto auditivo.

Referências bibliográficas

ETTINGER, S. J.; FELDMAN, E. C. Tratado de medicina interna de pequenos animais. 5.ed., Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2004. 1996p.

FERNANDES, CPM et al. Um estudo randomizado, duplo-cego e controlado por placebo para avaliar o efeito de um extrato aquoso de Triticum aestivum na inflamação do ouvido externo canino. Pesquisa Veterinária Brasileira, v.37, n.11, p.1270-1274. 2017.

LARSON, C. E.; LUCAS, R. Tratado de Medicina Externa –Dermatologia Veterinária. Rio de Janeiro: Interbook. 1ed. 2016.

MUELLER, EM et al. Efeito auxiliar do ceruminolítico na terapia tópica de cães (Canis lúpus familiaris) com otite externa ceruminosa. Ciênc. Anim. Bras. 14:59-64.

Revista-medicina-vet-em-foco-dermato_vol06-Ciciane Marten Fernandes

Dr.ª Ciciane Marten Fernandes

Médica-veterinária dermatologista e alergologista. Docente de ensino superior. Especialização em Clínica Médica de Pequenos Animais pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel). Mestre em Sanidade Animal / UFPel. Doutora em Sanidade Animal /UFPeL. Atendimento: Centro Veterinário Cambuí Rua Maria Monteiro, 1599 Agendamentos pelo telefone (19) 2515-2300

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