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Por Vivian Pedrinelli

Alimentação para peles sensíveis

ParticulariDAdes alimentares para aqueles animais que apresentam alterações na pele e pelo, mas que não são alérgicos às rações

Alimentação ajuda na qualidade dos pelos do animal - Foto: Valeriya21/IstockPhoto

Alguns dos problemas mais comuns na clínica veterinária estão ligados à pele e pelagem. Baixa qualidade de pelos, pelagem rarefeita, queda excessiva de pelos e alergias são algumas das causas de reclamação dos tutores. Algumas delas podem ser resolvidas com uma alimentação específica ou suplementação de nutrientes específicos, mas outras podem ser causadas por doenças e devem receber tratamento adequado.

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As causas de alterações dermatológicas são diversas, e incluem alergias ambientais, alergia à picadas de pulgas e carrapatos, infecções bacterianas ou fúngicas e alergias alimentares. Além disso, deficiências nutricionais causadas por ingestão de alimentos incompletos ou de baixa qualidade podem ocorrer, mesmo com consumo de alimentos comerciais, e podem afetar a pele e pelagem.

É importante citar que há uma diferença entre animais com peles sensíveis e animais com reação adversa ao alimento, também conhecida como alergia alimentar ou hipersensibilidade alimentar. A reação adversa ao alimento pode ter manifestação cutânea ou gastrointestinal, e é diagnosticada após se descartar outras alterações, como alergia à picada de pulgas e alergias de contato. Para animais que apresentam diagnóstico de reação adversa ao alimento, é necessária uma alimentação específica com ingredientes diferenciados e acompanhamento de especialista em nutrição animal. Já cães com peles sensíveis são aqueles que apresentam maior predisposição a alterações de barreira cutânea, aumentando assim o risco de outras alterações de pele, e não necessariamente tem alguma reação ou sensibilidade à alimentos.

Alimentação x saúde da pelagem

Independente do caso, é essencial o consumo de um alimento de qualidade e que supra os nutrientes recomendados para cães e gatos, uma vez que a recuperação da pele e pelagem depende do estado nutricional do animal. Alguns nutrientes importantes para manutenção e recuperação da barreira da pele são proteína, vitamina A, vitamina E, zinco e ácidos graxos essenciais como os da família ômega 6 e ômega 3.

Cerca de 30% da necessidade de proteína do animal é direcionada para pele e pelos, já que 90% do pelo é composto por proteína, e para a queratinização da pele e a renovação das células o organismo há também demanda por proteína. Assim, o consumo de quantidades deficientes de proteína ou de proteínas de baixa qualidade podem causar alterações na qualidade dos pelos, deixando-os opacos e sem brilho, assim como podem aumentar a queda de pelos e prejudicar a barreira da pele, predispondo o animal até mesmo a infecções. Além disso, alguns aminoácidos, como a tirosina e a fenilalanina, são responsáveis pela pigmentação dos pelos, e sua deficiência pode levar a alterações de cor na pelagem.

Algumas vitaminas são muito importantes para a manutenção da barreira da pele, como a vitamina A, vitamina E e vitaminas do complexo B. A vitamina A é necessária para que ocorra a diferenciação do epitélio e a queratinização da pele. A vitamina E, por outro lado, atua como antioxidante e auxilia na manutenção da estabilidade da membrana celular, o que é importante para que a barreira da pele seja mantida e diminua as chances de infecções. As vitaminas do complexo B atuam em diversos processos celulares e reações por todo o organismo, inclusive na reparação e troca de células da pele, portanto também são importantes nesses casos.Um dos minerais mais importantes em relação à pele é o zinco. Este mineral participa da síntese de ácidos graxos importantes para a pele, e também atua como cofator de RNA e DNA polimerases, sendo essencial para a renovação celular e inclusive a cicatrização de feridas. A deficiência de zinco, seja por condição genética ou alimentar, pode causar alterações e feridas na pele, que só apresentam resolução quando a suplementação é realizada.

Ômegas

Quando o assunto é nutrição de pele e pelagem, muito se fala dos ômegas, já que a pele é um dos órgãos mais sensíveis à deficiência de gorduras. Os ácidos graxos essenciais das famílias ômega 3 e 6 são muito importantes, e em alimentos para cães e gatos com peles sensíveis devem estar presentes em quantidades acima da recomendação mínima. O ácido linoleico, do grupo ômega 6, auxilia na manutenção da permeabilidade hídrica da pele e garante qualidade dos pelos, deixando-os macios e brilhantes. O fornecimento deste nutriente abaixo da quantidade recomendada pode levar à descamação da pele, queda de pelos e qualidade ruim de pelagem, com pelos opacos, ásperos e quebradiços. Este nutriente, portanto, se torna um dos principais quando se trata de animais com peles sensíveis. O ácido alfa-linolênico, do grupo ômega 3, também é importante. Ele garante a fluidez da membrana celular, e também é percursor dos ácidos eicosapentaenoico (EPA) e docosaexaenoico (DHA), que tem potencial menos inflamatório e auxiliam no controle de alterações dermatológicas.

Alimento ideal

Para garantir o aporte de todos os nutrientes essenciais para animais com peles sensíveis, é necessário escolher alimentos de boa qualidade e com ingredientes que possuam alta digestibilidade. Muitas vezes, os alimentos podem até apresentar no rótulo níveis adequados de nutrientes, porém se os ingredientes forem de baixa qualidade é possível que ocorra um menor aproveitamento dos nutrientes e assim, para animais com uma demanda maior, pode ocorrer deficiência. O mesmo acontece para alimentos com alta fibra ou maior quantidade de ingredientes de origem vegetal, já que ingredientes de origem animal muitas vezes não contém fibra, ou contém quantidades muito baixas. Alimentos com grande quantidade de fibra podem apresentar menor digestibilidade, ou seja, menor aproveitamento dos nutrientes.

Assim, um alimento para animais com peles sensíveis deve apresentar fibra baixa a moderada, deve conter níveis moderados a altos de proteína, deve conter quantidades adequadas de minerais como zinco e vitaminas como A e E, e também conter gordura moderada a alta, assim como ácido linoleico e ácido alfa-linolênico em quantidade moderada a alta. Além disso, é importante que o cão ou gato seja avaliado periodicamente por um médico veterinário para acompanhamento e, caso seja necessário, alteração do alimento e tratamento.

Referências:

CASE, L. P.; DARISTOTLE, L.; HAYEK, M. G.; RAASCH, M. F. Canine and Feline Nutrition: A Resource for Companion Animal Professionals. 3. ed. Missouri, EUA: Mosby Elsevier, 2011. 562 p.

FASCETTI, A. J.; DELANEY, S. J. Applied Veterinary Clinical Nutrition. 1. ed. West Sussex, Reino Unido: Wiley-Blackwell, 2012. 388 p.

HAND, M. S.; THATCHER, C. D.; REMILLARD, R. L.; RODEBUSH, P.; NOVOTNY, B. J. Small Animal Clinical Nutrition. 5. ed. Texas, EUA: Mark Morris Institute, 2010. 745 p.

Vivian Pedrinelli

Médica-veterinária, especializada em Nutrição de cães e gatos, na UNESP – Jaboticabal. Atualmente, faz mestrado pelo Programa de Clínica Veterinária da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo (USP), com ênfase em nutrição

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